O segundo show da “Madame X Tour” em terras lusitanas aconteceu ontem. Ele foi gravado e também aberto a imprensa. Com Madonna mais solta do que no primeiro show de Lisboa, a imprensa teve acesso ao espetáculo e não poupou elogios a Rainha do Pop. Confira:

Rádio Comercial

Madonna trouxe Madame X a Lisboa – o “lugar onde pertence”. As palavras são da cantora galáctica que se inspirou na riqueza dos sons da cidade lisboeta para a criação do novo disco e do espetáculo musical e visual que o alter ego Madame X personificaMadame X desdobra-se numa série de identidades e sorve a diversidade cultural do mundo para depois partilhá-la. É “uma dançarina, uma professora, uma chefe de estado, uma dona de casa, uma amazona, uma prisioneira, uma estudante, uma mãe, uma filha, uma freira, uma cantora, uma santa, uma prostituta e uma agente secreta”. Mulheres com força de braços e de pensamento que coabitam na “casa do amor” como lhe chama Madonna. Hoje estiveram todas no palco e a rainha até cantou o fado.


A soma dos imaginários das múltiplas identidades, a excelência dos músicos lusófonos convidados, um corpo de bailarinos de topo e a interação descontraída entre Madonna e o público resultaram numa performance grandiosa, magnetizante e íntima – por vezes quase imersiva – que pode muito bem liderar o pódio dos concertos do ano. O espetáculo da nova persona da rainha vaiarrebataraqueceraproximar e enlouquecer Lisboa até dia 23.

Madonna esteve no palco com as duas famílias que a têm acompanhado nos últimos tempos. A de sempre (os filhos Esther, Stella, Mercy James e David Banda) e a família mais recente que conheceu na cidade lisboeta onde vive desde 2017. Uma mão cheia de músicos – que nos são queridos e próximos – brilhou com a estrela norte-americana. Foi mais do que evidente a profunda gratidão de Madonna por ter no palco os portugueses Gaspar Varela (na guitarra portuguesa), Jéssica Pina (no trompete), Carlos Mil-Homens (na percussão), o cabo-verdiano Miroca Paris (nas congas e guitarra), a Orquestra de Batukadeiras de Portugal Dino D’Santiago. “Esperei tanto tempo para vir a Lisboa mostrar o que me tem inspirado”, confidenciou-nos às tantas. O agradecimento à musa Lisboa foi recorrente e retribuído com a mesma honestidade. Dino D’Santiago, o homem que apresentou os músicos e a vibração musical da cidade a Madonna, também agradeceu à rainha por levar a passear pelo mundo as culturas portuguesa e cabo-verdiana

Antes de continuarmos com o relato da experiência desta noite, uma nota mais prática. Mais uma vez, Madonna deu um passo à frente dos outros. À entrada do Coliseu, os telemóveis tiveram de ser acomodados numas bolsas de tecido (bolsas Yondr) que só foram abertas à saída. Correu tudo bem e certamente que vai haver quem siga o exemplo. Ninguém se importou com a exigência. A meio do espetáculo, Madonna, que não poupou no sentido de humor inteligente e aguçado, ainda perguntou se alguém estava a passar mal por estar sem telemóvel. Um sonoro “não” deu-lhe a resposta. Apenas uma memória futura vai ter um registo fotográfico da noite. Madonna tirou uma selfie e leiloou-a. Simples, eficaz e rentável. Juan, que veio de Espanha, ajudou a população do Malawi ao pagar uma quantia avultada à cantora pela relíquia. Ninguém “ressacou” por não ter telemóvel. Foi, aliás, um prazer redescobrir o que é ver um concerto apenas com os sentidos a absorver todos os ângulos do que ia acontecendo no palco. Madonna – 1. Tecnologias que só atrapalham a experiência – 0. 
 
Aconteceu tanta coisa que foi necessário convocar praticamente todos os sentidos para absorver este encontro mais próximo com Lady Madonna. A constelação do Michigan trocou os grandes estádios por salas mais pequenas para estar mais perto dos fãs e… esteve mesmo. Madonna esteve entre nós. Passeou (airosa, sedutora e feliz) pelo corredor, sentou-se numa cadeira na plateia e flirtou com um ser privilegiado que conseguiu um dos lugares dourados das filas da frente. A cantora, mais habituada a ter multidões aos pés, confessou-nos que queria muito ter um espetáculo mais intimista para “ver, cheirar e sentir” o público

O espetáculo foi humano, quente e próximo, mas também teatral e rigorosamente encenado. Nada pôde escapar na transposição do imaginário povoado de Madonna para o palco. Sem paragens entre as canções e as respetivas “mudanças de cena”, a narrativa alucinante de Madame X foi dividida em quatro atos e um festivo e encoreVimos a artista do micro detalhe, mas também uma Madonna mais humanizada, grata e confessional. Uma Madonna de peito aberto que ainda se deslumbra com o batimento cardíaco da música quando é tocada casualmente em bares ou casas de fado. A artista, que deu um rumo à pop nos anos oitenta, estava feliz por partilhar connosco o que redescobriu nesta fase da jornada. 
 

Por volta das dez da noite, as cortinas colossais vermelhas abriram para vermos as primeiras movimentações do mundo “louco” e maravilhoso de Madonna. O X, que estava ao centro, deu lugar a uma figura loira, serena e sedutora, envergando roupas de época a lembrar a guerra da revolução pela independência dos Estados Unidos. Movendo-se com a sua respeitável autoridade conquistada, nunca imposta, a cantora, agora com 61 anos, entrou em cena a cantar ‘God Control’ do último disco. “A arte está aqui para provar que a segurança é uma ilusãoArtistas estão aqui para incomodar a paz” foram as primeiras palavras a saltar do espetáculo para as consciências. As palavras do ativista e poeta James Baldwin iam sendo “datilografadas”, compassadamente, no ecrã. O manifesto artístico inaugurou a lista de assuntos urgentes que sobressaltam a artista. 
Madame X tem a missão de agitar consciências e de pô-las a dançar logo a seguir. Os sons de disparos e as “forças de segurança” que invadiram o palco ajudaram-nos a perceber que o foco estaria primeiro em questões internas norte-americanas, como o fácil acesso às armas e a violência policial. A luta pela individualidade das mulheres, a batalha pelos direitos da comunidade LGBT e a defesa da liberdade de expressão individual foram as outras mensagens que o coração culto e reivindicativo da performer meteu na frente de palco. ‘Express Yourself’, cantado à capella com a ajuda das duas filhas da cantora, Stella e Esther, e ‘Human Nature’, partilhado com as proezas ao trompete de Jéssica Pina e o ritmo orgânico de Miroca Paris na percussão, remataram o primeiro ato. O elegante ‘Vogue’, o mais recente ‘I Don’t Search I Find’ e ‘American Life’, de 2003, seguiram-se no alinhamento para compor o segundo.

Além desse lugar maior que é o da liberdade, a estonteante e multicultural experiência artística de Madame X andou por outros lugares – da nossa Lisboa à quente Colômbia – com uma paragem simples na pureza ritmada e solar de Cabo Verde. ‘Batuka’ teve a alegria da Orquestra de Batukadeiras, um grupo de mulheres que, na rotina dos seus dias nos subúrbios de Lisboa, dá vida aos batuques tradicionais das ilhas africanas. A entrada inesperada das Batukadeiras – pelos corredores laterais – provocou um motim pacífico de júbilo na sala. Madonna acompanhou-as no canto e na dança com uma felicidade quase infantil
A inspiração de Madonna é óbvia e diz-nos respeito. Está então nessa “nova Lisboa”, como canta o músico português Dino D’Santiago que subiu ao palco a convite de Madame X. Juntos partilharam uma recriação de ‘Sodade’ da outra rainha, a grande Cesária Évora. O momento foi para prestar tributo a uma inspiração de Madonna já de longa data. 

Além dos sons mais quentes de África, como funaná ou a coladeira, o que inspira Madonna está também no fado que temos cravado no peito. Madame X cantou-nos um.‘Fado Pechincha’ foi honrado na voz real da rainha que quis prestar homenagem a esta forma de expressão exclusiva do povo português. A acompanhar, estiveram todas as emoções dos acordes da guitarra portuguesa tão bem manuseadas pelo talento natural de Gaspar Varela, bisneto da fadista Celeste Rodrigues (irmã de Amália). 

Depois de termos estado num clube de fados – com samba, chá-chá-chá e amarguinha – e do pulo transatlântico que demos até à colombiana Medellín, ainda fomos surpreendidos com a interpretação imaculada, introspetiva e comovente da balada ‘Frozen’. Ao piano – atrás de uma tela gigante suavemente transparente – Madonna deu espaço a um holograma onde dançava uma bailarina. Quem estava a ocupar graciosamente o ecrã era a filha mais velha da cantora, Lourdes Maria, que, mesmo à distância, protagonizou um dos momentos mais emotivos da noite de glória de Madame X. A partilha do palco com os filhos mostrou-nos uma mãe babada e muito consciente da importância da expressão artística no crescimento destes. Foi bonito de se ver.

‘Come Alive’, ‘Future’ e ‘Crave’ fecharam a sequência de temas que estavam ainda por estrear em solo nacional. A “oração” celebrativa ‘Like a Prayer’ transformou o Coliseu num lugar de culto privilegiado. Todos os que estavam na sala levantaram os braços para replicar os tiques que reconhecemos nos mais sincronizados coros de gospel.

No final, ao som de ‘I Rise’ e com os espíritos ao alto, Madonna e os bailarinos sairam da sala pelo corredor principal, no meio dos fãs de já muitas vidas artísticas.

Como diria a cantora Nina Simone, “liberdade é não ter medo”. Pois bem, Madonna ousou ser livre outra vez. 

Diário de Notícias

Ainda faltam alguns minutos para o início do concerto e à medida que vai enchendo, a por vezes tão enorme sala do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, parece tornar-se cada vez mais pequena. Afinal, não é todos os dias que se vê uma das maiores estrelas pop do mundo assim tão perto, literalmente “olhos nos olhos”, como a própria Madonna fará questão de sublinhar, quando mais tarde subir ao palco. Este não é, portanto, um concerto como os outros. Sente-se isso na rua, multidão multinacional que ordeiramente forma duas filas para entrar no coliseu, mas especialmente na sala, onde os níveis de ansiedade se vão acalmando ao som de um quarteto composto pela comitiva lusófona de Madonna, os percussionistas Carlos Mil-Homens e Miroca Paris, o guitarrista Gaspar Varela e a trompetista Jéssica Pina, que se despediu ao som de uma versão instrumental de Like a Virgin, por todos cantada em coro.

Quando as luzes se apagaram e pela primeira vez se ouviu a voz de Madonna, a falar no tal espetáculo “olhos nos olhos”, “sem telemóveis pelo meio”, o silêncio foi total, tal como na coreografia inicial, feita por um bailarino, apenas ao som de uma máquina de escrever, enquanto eram projetadas numa tela algumas frases do escritor e ativista afro-americano James Baldwin. “A arte está aqui para provar que toda a segurança é uma ilusão”, lê-se a dada altura no palco, como que antecipando as quase três horas de espetáculo prestes a iniciar.
Mais que um mero concerto pop, a atuação de Madonna está mais próxima do conceito de musical, em que as canções, os cenários e as coreografias servem para fazer passar uma mensagem política. De apoio às minorias, à luta pela liberdade, ao feminismo, à emancipação individual de cada um. Em suma, ao direito de se ser feliz. E músicas como as que compõem o último disco Madame X são a banda sonora perfeita para tal tipo de evangelização, como ontem se viu em Lisboa logo no arranque do concerto, ao som de God Control, com Madonna a alertar o público – “this is your wake up call” – para a urgência de uma “new democracy”.

A primeira grande explosão da noite dá-se no entanto com Human Nature, tema do álbum Bedtime Stories, de 1994, no qual Madonna divide o protagonismo com a trompetista portuguesa Jéssica Pina, antes de terminar a cantar à capela, acompanhada de um coro de mulheres negras, que inclui as filhas Esther, Stella e Mercy: “I´m not your bicth, don’t hang your shit on me”.

No palco sucedem-se as mudanças de cenário, escadarias, varandas, passadiços e todo o tipo de estruturas, por onde sobem e descem bailarinos e músicos. Por trás de um biombo Madonna muda ali mesmo, deixando apenas à vista as pernas, abertas. “Dizem que os olhos são os olhos da alma, mas há outra parte do corpo que deixa ver a alma muito melhor”, provoca, antes de dizer um sonoro “caralho”, a única asneira que sabe em português, confessa.
“Em quem pensam quando falo em pilas pequenas?” A resposta do público foi automática e algures, em Washington, o presidente dos Estados Unidos deve ter ficado com as orelhas a arder. “Não tenho conhecimento empírico sobre esse assunto, mas sei que o tamanho realmente importa”, adianta. Strike a Pose, ouve-se entretanto, antecipando mais uma explosão do público, por esta altura já todo de pé, apesar das cadeiras, para dançar ao som de Vogue, o clássico de 1990. O regresso a Madame Xacontece com I Don´t Search I Find, que serve para Madonna explicar quem é este novo alter-ego: “é dançarina, professora, chefe de Estado, prisioneira, estudante, mãe, criança, freira. É uma rainha, mas também é uma prostituta. Quem é que vocês preferem que eu seja, a rainha ou a prostituta?”

Sozinha em palco, Madonna tira então uma polaroid de si própria, “a única fotografia que vai haver desta noite”, sublinha, recordando novamente tratar-se de um concerto sem telemóveis (os aparelhos são guardados numas bolsas, apenas abertas à saída). Como aconteceu nos restantes concertos da digressão de Madame X, Madonna leiloa ali mesmo a fotografia. Na primeira noite rendeu cinco mil euros, pagos por um fã brasileiro, e ontem outros mil, desembolsados por Juan, que veio de propósito de Espanha para a ver.
Donald Trump, “o psicopata que inventou uma guerra”, volta novamente à baila, em jeito de introdução para American Life, o tema de abertura do álbum com o mesmo nome, editado em 2003. O ambiente está no entanto prestes a mudar, como se percebe quando irrompe pela sala a Orquestra de Batukadeiras de Cabo Verde. Já em palco, sentadas num semicírculo à volta de Madonna, interpretam com ela o tema Batuka, num dos momentos mais comoventes da noite, que termina com todas de mãos dadas.
Madonna chega-se então para a frente do palco, para contar ao público a história da sua relação com Lisboa, das pessoas que aqui conheceu e de como a cidade a inspirou. O discurso é muitas vezes interrompido por declarações de amor vindas do público, nas mais variadas línguas e sotaques. Madonna aproveita e também faz uma declaração de amor, à “grande amiga Celeste Rodrigues”, que homenageia cantando um fado, acompanhada apenas pela guitarra portuguesa de Gaspar Varela, bisneto da fadista. “Outra grande mulher, a Celeste”, desabafa, antes de voltar a Madame X, com Killers Who Are Partying“O mundo é selvagem, o caminho é solitário”, volta a cantar em português.

Abrem-se entretanto as cortinas e o cenário está agora transformado numa típica casa de fados lisboeta. “Bem-vindos ao meu clube de fados, onde se bebe amarguinha”. Ouve-se La Isla Bonita, que se funde com Sodade. Madonna chama então ao palco o “rei do Funaná”, Dino D’ Santiago, com quem interpreta a meias uma arrepiante versão do clássico de Cesária Évora. Na plateia, todos cantam e alguns fãs cabo-verdianos não conseguem conter as lágrimas. “Tinha muita vontade de cantar esta canção para um público que soubesse a letra”, confessa no final.

A temperatura volta a aquecer com Medellin, noutro dueto, este virtual, com o cantor colombiano Maluma, durante o qual a cantora desce até à plateia, para dançar no meio do público. Voltará mais tarde, desta vez acompanhada pelo filho, David, para se sentar na primeira fila, a descansar um pouco, ao lado de Ben, um jovem enfermeiro alemão, vestido com um soutien em forma de cone, idêntico ao que Madonna usou em 1990, durante a Blond Ambition Tour. “O que tens aí dentro”? Pergunta, enquanto divide uma cerveja com o fã, que lhe responde que “é apenas um par de meias”. “Veem? O tamanho realmente importa”, atira antes de regressar ao palco, para interpretar Extreme Occident, outro tema do novo disco, no qual também canta em português – “Aquilo que mais magoa é que eu não estava perdida”.

Segue-se novo regresso ao passado, desta vez ao som de Frozen, a balada incluída no álbum Ray of Light, de 1998. Madonna interpreta a canção atrás de uma tela semitransparente, onde aparece projetada uma coreografia que tem como protagonista a filha mais velha, Maria de Lourdes. Após este momento mais intimista, a temática política regressa com Come Alive e Future, dois dos temas mais panfletários de Madame X, com a cantora americana a aproveitar a ocasião para fazer um discurso sobre “o valor da liberdade”, exortando todos os presentes a serem, tal como ela própria, “lutadores da liberdade”.
A artista avisa que já só falta uma música, mas ninguém arreda pé após a animada festa disco de Crave – não faltou sequer uma bola de espelhos gigante, a fazer lembrar os velhos tempos do Studio 54, em Nova Iorque, onde Madonna começou a cantar. Todos sabem que ainda falta um dos momentos mais aguardados da noite e quando se ouvem os primeiros acordes do clássico Like a Prayer o Coliseu explode como ainda não tinha acontecido até então. Por todo o lado se canta e dança ao som do coro gospel que acompanha Madonna em palco.
Agora sim, podia acabar, mas não, ainda faltava algo. Ouvem-se novamente as teclas da máquina de escrever: “os artistas existem para perturbar a paz”, aparece desenhado nas paredes do coliseu, numa nova citação de James Baldwin que parece resumir na perfeição toda a carreira de Madonna.
No ecrã surge então a imagem de Emma González, a jovem ativista anti-armas americana, que em 2018 sobreviveu a um massacre na sua escola da Flórida. São dela as palavras ouvidas no início de I Rise, a faixa-manifesto que encerra Madame X – o disco e o concerto. De punho cerrado e braço levantado, Madonna entoa as últimas palavras de ordem, acompanhada de todos os músicos, bailarinos e cantoras: “Yeah, we gonna rise up. Yeah, we gonna get up. Yes, we can, we can get it together”. Depois, desaparece no meio do público, como se fosse apenas mais um de nós. De facto, isto é mais que um simples concerto.